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Como já disse aqui, a austeridade em nome da estabilidade da eurozona, revelou a fórmula: austeridade para pobres prosperidade para ricos.

Agora, na situação da Grécia, vemos revelada a seguinte fórmula: quem mais insiste na estabilidade é quem provoca a instabilidade. O mesmo é dizer: o obsessivo pelo controle é quem provoca o caos.


O FMI aparece sempre com relatórios tardios. Deve ser por isso que a lista dos países que ficaram melhor depois da sua intervenção seja esta.

Vimos Christine Lagarde a pressionar queremos o nosso dinheiro... a Grécia tem de apresentar mais medidas... e aquela do diálogo com adultos na sala... e agora, quando tudo já se complicou, vem o FMI apresentar um relatório que confirma o que o governo grego pediu? É para tentar compor o que ajudou a estragar?


Quem provoca mais instabilidade, caos e destruiçao? O sistema financeiro, os mercados, e quem defende a sua lógica: a banca, as corporações, os tecnocratas, os políticos, etc. Precisamente os que insistem na estabilidade, no controle, na austeridade.


Este clube utiliza uma argumentação sinuosa e falsa: é a ideologia... não querem cumprir o acordado... não querem fazer reformas...

Falso: não se trata de ideologia nenhuma, é a vida real das pessoas que está em causa.

Falso: o acordado é apenas a imposição do BCE, da CE e do FMI.

Falso: as reformas, as medidas, o ajustamento dirigiu-se à economia e ao trabalho, precisamente o que poderia pagar a dívida. Não se mexeu nos desequilíbrios (incluindo os provocados pelo euro), na grande fuga fiscal, nos paraísos fiscais, incluindo os da Europa, na desregulação dos mercados, na corrupção, na má gestão privada ou pública, precisamente naquilo que condiciona o futuro e que escraviza gerações.


Qual a lógica que irá prevalecer na Europa? A da finança ou a da economia? Vejamos o exemplo da Coreia do Sul.

Este é o debate actual, não é uma questão de ideologia.

 

 

 

 

 

 

publicado às 14:59

Cidadãos europeus: plano B, C e D (d' A Vida na Terra)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.06.15

E de repente perdemos o pé e toda a realidade que nos era familiar surge-nos agora completamente alterada. Vivíamos na ilusão de uma certa previsibilidade. Digo ilusão, porque a incerteza tornou-se a norma na Europa: "os mercados estão nervosos"... "os juros subiram"... "o BCE injectou mais n mil milhões nos bancos"... 

Tudo gira à volta da lógica financeira, mutável e volátil, minuto a minuto.


Para já, UE, CE, BCE, FMI, Eurogrupo, já não serão vistos como entidades competentes e responsáveis para prevenir situações críticas, para aprender com os erros, para negociar e fechar acordos.

Dito de outro modo, os cidadãos europeus perderam a ilusão sobre a capacidade das instituições europeias e internacionais de prevenir a tempo ou agir de forma rápida e eficaz em situações de emergência.


O que aprendemos quando perdemos a ilusão da protecção? Quando descobrimos que as instituições europeias e internacionais se movimentam na lógica financeira e não na economia real? A economia real que é a nossa vida concreta, a nossa sobrevivência, o nosso futuro? Isso mesmo, tentamos encontrar formas viáveis e criativas de sobrevivência.


O primeiro grande desafio: como manter a calma, a reflexão e a sensatez, em tempos de grande receio e incerteza? É que estas capacidades estão na base das melhores decisões.


Reflectir: enquanto cidadãos europeus, estamos todos na mesma plataforma instável. É nossa responsabilidade procurar um plano B, um plano C, e mesmo um plano D.

Com que recursos? Tecnologias de informação e comunicação; rapidez de raciocínio, flexibilidade e criatividade das novas gerações e a nova cultura da colaboração.


Planos B, C e D:


Plano B - é o mais difícil porque se trata de construir sobre ruínas em alguns países e regiões. Economia destruída sem substituição por outra. Classe média na pobreza. Recursos entregues a privados. Na actual situação de emergência da Grécia: pagamento ao FMI dos tais 1,7 mil milhões de euros, o equivalente a uma conta num qualquer paraíso fiscal da Europa. Como as instituições europeias e internacionais não querem ir por aí e aguarda-se o resultado do referendo, há que resolver isso por outro lado. Logo a seguir e dependendo do resultado do referendo: preparar uma fonte de financiamento alternativa, outro tipo de crédito. O mais provável é que este plano B já tenha sido iniciado pelo governo grego.


Plano C - começar a preparar desde já (e este plano já inclui os países mediterrânicos), a possibilidade da saída do euro. Esta saída já devia ter sido preparada, aliás, aos primeiros sinais do fiasco do euro. Aqui as soluções podem mesmo passar por desenhar economias não baseadas na lógica do sistema financeiro, e mesmo relativamente independentes de um sistema que só produziu desequilíbrios que já atingiram o limite do sustentável a todos os níveis.


Plano D - criar uma cultura de colaboração entre países e regiões, propondo soluções viáveis e ajudando a concretizá-las, isto é, passar da lógica das emoções reactivas à construção de novas comunidades inter-países e inter-regiões, úteis e eficazes. As novas gerações já funcionam nesta nova lógica.

 

 

 

 

 

publicado às 13:06

A cultura de violência financeira (d' A Vida na Terra, 19/05)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.05.15

Se alguém acreditou no slogan da propaganda eleitoral europeia "desta vez é diferente", já teve oportunidade de verificar que era mais uma grande mentira. Afinal, não é com vinagre que se apanham moscas (graças a Deus deixei de ser mosca).

Não só não é diferente como o BCE, a CE e o Eurogrupo ganharam novo fôlego no caminho do domínio da finança sobre a economia e os europeus, as tais pessoas do vídeo eleitoral.

Este caminho do domínio da finança está perfeitamente visível na humilhação da Grécia, esse processo abjecto em que Portugal colaborou activamente. Também aqui se verifica não apenas a distorção completa do que prometia a propaganda eleitoral como uma terrível violência contra todo um povo em apuros, as tais pessoas que se prometia ouvir e apoiar. Afinal, para estes tecnocratas quem são os europeus do vídeo eleitoral?


A violência na humilhação da Grécia, pelo BCE, a CE e o Eurogrupo, secundados pelo FMI, vai ter consequências imprevisíveis.

Há muitas formas de violência e esta, a financeira, efectuada à distância, de forma impessoal, fria, metálica, à séc. XXI. é tão destrutiva como as outras. Provocar a exclusão e espalhar a fome, por países da Europa e por novos guetos regionais, enquanto reembolsa os últimos trocos e os juros, é uma forma de violência abjecta.

Mas veja-se como a ministra das finanças de Portugal se comportou quando chegou ao "Olimpo dos Deuses" da nova Europa: perfeitamente enquadrada na cultura de violência financeira.


Uma resposta criativa deu-a uma jornalista que furou a segurança de Mr. Draghi para espalhar confetti sobre a sua "divina"cabeça.

 

 

 

   

 

publicado às 12:26

Presidente vs primeiro ministro (d' A Vida na Terra, 8 de Abril)

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.04.15

Hoje ser Presidente em Portugal é muito mais atractivo do que ser primeiro ministro.

 

E porquê? Porque o próximo primeiro ministro que sair do bloco central partidário terá de seguir o guião e obedecer à cultura política dominante.

E qual é o guião? É o manual europeu dos credores e dos mercados.

E qual é a cultura política dominante? A que nos é tristemente revelada na assembleia da república. 

Os novos partidos que vemos emergir terão de se afirmar culturalmente sem complexos nem receios, e isso dá muito trabalho.


Já ser Presidente é mais interessante actualmente, trata-se de: representar um país, um povo, uma cultura; lembrar os valores essenciais expressos na Constituição; inspirar para a acção criativa e para o bem comum; identificar as oportunidades e possibilidades e activá-las a partir do seu papel de influência. Um/a candidato/a de acção e exemplo.

Finalmente, um/uma candidato/a que revelar gostar realmente de pessoas, de interagir com pessoas, e que se movimente à vontade, não apenas no seu grupo de referência mas em todos os meios culturais e sociais. 

 

 

 

 

publicado às 11:17

O que os cidadãos vêem como falhanço completo, o governo-troika e os troikanos vêem como sucesso. Já o ex-PM recorria ao Financial Times para promover a sua determinação, lembram-se? Qual a credibilidade dessas manobras? Nenhuma.

Entretanto, ainda tivemos o regresso do Ajustador reabilitado por um livro, de forma a conseguir uma carta de recomendação do Líder Reformador (palavras suas de lealdade canina) para ser catapultado à alta finança internacional.

Ontem, enquanto seguíamos as notícias preocupantes da Ucrânia, tivemos de assistir a recortes de uma conferência do Economist com partes da exposição da ministra das finanças satirizando sobre a lentidão do discurso do seu antecessor e partes do discurso do vice-primeiro ministro personificando o 8º marido de Zzá Zzá Gabor. Este é o nível do filme.

Mas o filme de terror O Ajustamento aí está para ficar. Foi o que veio dizer um troikano do FMI, contrariando a tal recuperação económica publicitada pelo governo-troika.

 

 

O falhanço é de todos:

 

- governo-troika: escolheram seguir o guião do filme dos troikanos mas foram ALÉM do guião. É por isso que até agora não houve ajustamento nem reformas, logo o Líder Reformador e o Ajustador são personagens de ficção. O que houve foi aumento de impostos e cortes de salários e pensões. Agora o troikano do FMI vem questionar o que faltou fazer, mas aposto e os meus conterrâneos também, que continuarão a escolher sacrificar o trabalho e as reformas antes de tocar na grande fuga e fraude fiscal, nos grandes grupos económicos, na finança, nas fundações, nos institutos e organismos duplicados da administração central, na redução de câmaras municipais e reposição das juntas de freguesia, na assembleia da república e o nº de deputados, enfim, as excepções próprias de uma cultura corporativa. Entretanto perderam a confiança dos cidadãos, pelo que se prevê péssimos resultados nas europeias e nas legislativas, independentemente da sua propaganda eleitoral. 

 

- troikanos: o seu objectivo era claro desde o início, pôr-nos a arder em lume brando, empobrecer o país, transferir os recursos gradualmente do sector público para o sector privado, colocar-nos no lugar certo relativamente aos restantes estados-membros da UE, os da 3ª região, a do turismo e lazer, é para isso que servimos.

 

- Europa das estrelinhas: não foi apenas connosco que falharam, foi com a Grécia, a Irlanda, a Espanha. É claro que ao não assumir o desvio do projecto europeu inicial e ao desvirtuar a democracia implícita nesse projecto, a UE perdeu a credibilidade e a legitimidade. A Europa das estrelinhas é uma enorme agência de negociatas ocultas e duvidosas que se alimenta dos recursos estratégicos, do trabalho dos cidadãos a quem retirou já praticamente a qualidade de vida (um direito que era considerado universal), e mesmo do nível de desemprego, essencial para manter baixos salários e perda sistemática de poder de negociação.

 

É neste cenário de terror, neste double bind (beco sem saída) que nos encontramos hoje: o governo-troika continuará a proteger os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros e a sua implantação partidária na administração central e local, logo irá cortar no trabalho e nas reformas. Poderá disfarçar com um ou outro exemplo inócuo para ludibriar os cidadãos mais ingénuos ou papaguear que herdou uma dívida astronómica, que os mercados já não nos emprestavam dinheiro, blá blá blá... ou continuará o auto-elogio repugnante de que o ex-PM também era perito. Essa converseta medíocre do marketing político já não cola. A questão é outra, a lógica é outra, e já todos perceberam.

Portanto, deste governo-troika não há nada a esperar.

 

Mas eis que o nosso double bind (beco sem saída) se estreita ainda mais: a própria lógica partidária e a lei eleitoral já não servem a possibilidade da composição de um governo credível e uma gestão adequada dos recursos colectivos. Também perderam a confiança dos cidadãos enquanto eleitores. Prevê-se um aumento da abstenção e do voto em branco, assim como o emergir de movimentos cívicos.

 

Temos, pois, esta janela pequena de tempo ANTES das eleições europeias para reflectir no nosso futuro como país. DEPOIS das eleições, seremos esquecidos, ignorados, humilhados e devidamente reposicionados na condição de país de 3ª categoria. Vai uma apostinha? Nós somos as praias ocidentais, as cidades acolhedoras, a gastronomia, para turistas ricos do norte e centro. As zonas de influência estarão no centro e no norte. De nós apenas continuarão a acolher os nossos melhores recursos humanos e os nossos melhores produtos.

 

E no entanto... o país que eu visalizo não é periférico é estratégico, não é o da cultura corporativa mas o da cultura da colaboração, não é pobre tem qualidade de vida, não é triste é dinâmico, não é desencantado é criativoNão é gerido por estes partidos que nos trouxeram até aqui, nem pela sua lógica de séc. XIX, nem pela sua cultura de trincheira, nem pela estratégia de influência.

As lideranças que visualizo são inteligentes, têm ética, colaboram em rede, abrem-se à participação dos cidadãos, gerem os recursos de forma equilibrada e saudável, promovem a qualidade de vida. Creio é que não será na minha geração.

 

 

Portanto, o que ficou pelo caminho? A democracia, as condições de trabalho, a esperança de uma vida melhor. Tudo o que a revolução dos cravos prometia.  Aí está o resultado, depois do gonçalvismo, do soarismo, do cavaquismo, do guterrismo, do socratismo e do troikismo (saltei a AD de Sá Carneiro; Durão Barroso que abandonou o barco; e Santana Lopes que nem aqueceu a cadeira). Interessante será ver como se vai festejar uma data, e já lá vão 40 anos, e apresentar este triste resultado: a neocolonização internacional. Concluo, pois, que tinha razão ao considerar que estamos pior do que na primavera marcelista, não fosse evidentemente a polícia política e a guerra colonial. Mas estávamos virados para o futuro, havia esperança no ar que iríamos evoluir progressiva e pacificamente para uma democracia de qualidade. 

 

 

 

publicado às 16:05

O governo soma e segue atropelando todos os mecanismos democráticos, a certidão da nossa organização política, as regras do jogo, os representantes partidários e o representante arbitral digamos assim.

É o desequilíbrio político à Estado Novo, manda o Chefe do Conselho. Bem, na verdade, não é assim, manda a troika, a CE, o BCE, o FMI, a Alemanha, a alta finança. O governo é apenas um gabinete da troika.

 

Aliás, o governo-troika PSD/CDS conseguiu, pelos vistos, ir além do exigido, ir além da troika, o que revela o seu profundo envolvimento e empenho. As pessoas já perceberam isso. O governo-troika continuará a seguir este caminho de buldozer sem controle apesar das avaliações do tribunal constitucional, dos debates histéricos no parlamento e perante a passividade e serenidade do Presidente.

O PSD e o CDS sabem que não têm qualquer hipótese de ganhar as próximas legislativas. Qual é o povo que se quer suicidar?

O PSD e o CDS sabem que país teremos em 2015. Sabem porque o planearam e programaram. É o país da "nova normalidade".

 

Ontem dei comigo a ver o Política Mesmo, a parte de Manuela Ferreira Leite, e depois a Prova dos 9 na TVI.

Não consegui, por motivos de saúde mental, ouvir a entrevista da ministra das Finanças, a repetição do discurso tecnocrático de Gaspar faz mal à saúde pública, mas pelo que ouvi a Fernando Rosas e a Francisco Assis, a "nova normalidade" permitiu-me confirmar a marca registada deste governo-troika.

 

"Nova normalidade", pois. Para quem? Para a grande maioria dos portugueses.

Como Francisco Assis referiu: pobrezinhos e alegres. Tal como no salazarismo.

Fernando Rosas lembrou a história depois de 29, da grande depressão.

Paulo Rangel, esse, pareceu-me bastante constrangido e em conflito interno. Afinal é culto, sabe história e política, e é especialista na constituição. Como conseguirá ele, o da moção "Libertar o Futuro", conviver com a "nova normalidade"? De um lado, tem a missão impossível de acordar as consciências tecnocratas e do outro, um lugar na Europa ou em instâncias internacionais. Afinal, estes lugares são apenas trampolins para lugares melhores.

 

E é isso que veremos também acontecer aos rostos da austeridade Durão Barroso, Passos Coelho e Paulo Portas: um lugarzinho na estratosfera político-financeira europeia e mundial. Há sempre um império financeiro, uma fundação, uma organização, uma multinacional à espera. Tal como Constâncio foi catapultado ao BCE depois da ausência de supervisão bancária, ou Gaspar voltou à alta finança depois dos cortes a torto e a direito e sempre nos mesmos, também os principais rostos da austeridade terão um lugarzinho à sua espera. Afinal, não foram poucos os serviços prestados, para que alguns poucos tenham o lugarzinho no céu é preciso deixar o país no inferno... (Faz-nos falta um Gil Vicente para retratar tudo isto...)

 

 

Já agora, esse país que nos desenharam sem nos pedir a opinião, ja tem uma marcha popular ou mesmo um fado? Não será mais ou menos assim?

 

 

 

Cá vamos cantando e rindo

alegres na nossa pobreza

O destino nacional

é a delicadeza

com certeza

 

 

Somos o país da sardinha assada

da arrufada

do azeite

e do vinho tinto

A nossa marca é a gastronomia

e a bonomia

 

Temos o clima adequado

ao mercado

e o perfil profissional

um vosso criado

 

Admiramos e veneramos

os ricos e famosos

os poderosos

e vivemos para agradar

aos nossos investidores

e benfeitores

 

Cá vamos cantando e rindo

na nossa alegre pobreza

com certeza

 

 

 

Como vêem, isto ainda é apenas um esboço, é preciso melhorá-lo, musicá-lo, depois até se pode encomendar uns figurantes para fazer um vídeo, tal como aquele que o Professor Marcelo fez para os alemães mas com esta "nova normalidade".

Embora não me agrade muito a perspectiva de país conformado e mediano do Professor Marcelo, a sua visão de país sempre era melhor do que esta "nova normalidade". A propósito, que ninguém fique preocupado com o destino do Professor Marcelo, porque todos percebemos que ele tem popularidade para ganhar umas presidenciais, foi por isso que lhe pisaram os calos. Ao acusar o toque ganhou alguns pontos na corrida. 

 

 

 

publicado às 12:45

Portugal sem os portugueses e a Europa sem os europeus

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 16.01.14

O que faz um lugar são as pessoas que o habitam. Foi esta a experiência da minha vida ao voltar a certos lugares que marcaram o meu percurso. A paisagem pode ter-se mantido, mas a ausência das pessoas fundamentais tornou-os inabitáveis para mim. Alguns lugares tornaram-se mesmo inóspitos e hostis.

 

Portugal sem os portugueses, como será? Quem virá habitar um lugar assim? A sua cultura única irá perder-se? Ficará apenas a sua gastronomia e o folclore para turistas? Ficará a sua literatura e poesia em formato de lançamentos de livros?

Qual o destino deste país? O turismo para os ricos da Europa do norte? 

Qual o destino dos portugueses? Emigrar por não terem lugar no seu próprio país?

 

E ainda se queixam que a taxa de natalidade continua a descer... Não perceberam nada?

 

A cultura de um país e os seus habitantes é um tema fascinante, implica estudar a sua história, analisar os seus valores dominantes, as diversas comunidades.

Como país, Portugal e os seus habitantes têm sofrido bastantes traumas culturais e sociais, lembremos apenas os mais recentes: as invasões francesas, a guerra civil miguelistas-liberais, o regicídio, as turbulências da primeira república, o salazarismo, a descolonização apressada e desorganizada, a integração mal conduzida na CEE, a austeridade, a apropriação dos recursos estratégicos. (*)

Neste percurso atribulado e constrangedor muitos dos seus valores essenciais se perderam. A alma portuguesa ficou mais pequenina, do tamanho da avidez, da ganância, da inveja do imaturo, da cultura do objecto.

Ainda poderão ter resistido alguns vestígios da nossa cultura generosa e universal, mas por quanto tempo?

Vemos agora sair os jovens e os de meia idade. Os mais velhos andam cada vez mais assustados. Qual o futuro de um país que não protege os mais frágeis e vulneráveis?

 

Com a indiferença própria dos muito arrogantes, vemos o marketing político europeu aliciar os cidadãos sem qualquer referência ao falhanço do projecto europeu, sem sequer terem assumido os erros na orientação dos países-membros que conduziu ao desastre económico e financeiro e à consequente apropriação dos recursos estratégicos.

A CE nunca assumiu a sua responsabilidade pelo falhanço do projecto europeu e pelo programa austeridade que acarinhou e impôs sobretudo aos estados-membros do sul. A CE nunca se preocupou com o desastre social que acarinhou e impôs aos estados-membros do sul. Assistir a esse processo foi revelador para mim, percebi até que ponto os tecnocratas da CE são capazes de ir para atingirem o seu objectivo que nada tem a ver com o projecto europeu, é outra coisa.

Essa outra coisa assemelha-se, no desenho que começamos a vislumbrar: uma grande organização para alguns muito ricos e poderosos servidos por uma multidão de escravos ou semi-escravos e alienados. Ora, alguém que serve um amo não é um cidadão de pleno direito, é um escravo ou semi-escravo e alienado.

 

O projecto europeu falhou e no seu falhanço arrastou países, pessoas concretas, expectativas e sonhos. Prometeu para aliciar, como agora volta a prometer para aliciar, mas o desenho está lá, por detrás dos tratados, em tinta invisível: uma grande e poderosa organização para alguns poucos servidos e alimentados por milhões e um território despojado dos seus recursos estratégicos que estarão na posse desses poucos muito ricos e poderosos.

 

Com esta ideia alucinante da união bancária, cada vez mais martelada como a salvação do projecto europeu, a armadilha fica completa, é como assinar o próprio destino de serviçal vitalício, incluindo o dos seus descendentes, para as próximas décadas.

 

É tão fácil vender um país, já repararam? As instruções até vieram da própria CE... Primeiro, gastar, endividar-se; a seguir, contrair drasticamente e cortar no essencial; pôr os cidadãos à míngua, empurrá-los para fora; vender a seguir por tuta e meia os seus recursos estratégicos.

 

 

 

 

 

 (*)  Esqueci-me de referir a participação na 1ª Grande Guerra e a guerra colonial.

 

 

publicado às 18:17

O jornalismo televisivo, a finança, a política e a saúde mental

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.07.13

Quando uma situação é dramática, o pior que se pode fazer é dramatizar em cima do drama. Mas é isso que o jornalismo televisivo tem feito: dão-se as novidades minuto a minuto pegando nos pormenores mais insignificantes e transformando-os em notícia; os dados e números que se debitam são pouco consistentes e contraditórios; a esta falta de consistência é acrescentada uma interpretação também pouco credível; e tudo isto nos é transmitido em vozes estridentes e ofegantes como se desta informação dependesse a nossa própria vida.

Digamos que as notícias televisivas hoje são factor de ansiedade, angústia, preocupação (a mistura do stress), e de depressão. Digamos que em vez de contribuírem para acalmar e animar as pessoas já de si aflitas com a sua situação actual e com o futuro, agravam essa aflição. Dito de outro modo, em vez de promoverem a saúde mental, agravam a doença.

 

A juntar às notícias, temos ainda os comentários políticos, económicos, financeiros, sociológicos, etc. Também apresentados de forma dramática, na sua maioria. Se os levássemos a sério pensaríamos que o mundo vai acabar amanhã e que o país não tem salvação possível. E se considerássemos os debates e os frente-a-frente e os vice-versa como um reflexo do nosso colectivo, então ficaríamos convencidos que não há hipótese de um diálogo civilizado, de uma aproximação de ideias, de um encontro de posições.

A forma como se vive e respira a política, nas televisões e na Assembleia da República, revela uma questão mais profunda, a sua dimensão cultural, mas também tem a ver com a saúde mental.

 

A política reflecte hoje a profunda insanidade mental da vida financeira e da forma como engoliu a economia e a democracia. Nesse mundo tudo é vivido em alta ansiedade, em alta rotação, em alta velocidade. É um mundo onde os grandes comem os pequenos, mas sem lógica nenhuma aparente. Não há regras nem previsibilidade, mas exigem-se regras aos outros e que sejam previsíveis. É um mundo volátil e perigoso porque arrasta no seu turbilhão vidas humanas, expectativas de famílias, a dignidade do trabalho, quotidianos pacíficos, e a saúde mental de populações inteiras.

Para defendermos o direito de viver (e já não se trata dos tais direitos adquiridos que nos atiravam à cara precisamente aqueles que nunca viram as suas mordomias beliscadas), viver de forma digna e saudável (e trata-se aqui de direitos humanos mais básicos), temos de pôr um travão neste turbilhão que nos envolve, angustia, aprisiona, condiciona, adoece.

 

Comecemos então por promover a calma, o bom senso, o sentido de responsabilidade, nas televisões. As notícias devem ser apresentadas depois de validadas pela realidade. Debitar números soltos e casuais como se significassem mais do que isso, sem controlar as variáveis, sem apresentar os dados de forma comparativa e contextualizada, é batota e só confunde as pessoas. A isto chama-se qualidade da informação, informação fidedigna.

Quanto aos comentários disto e daquilo, deveriam pensar duas vezes antes de seleccionar os comentadores, convidando apenas os que apresentam a sua opinião baseada em conhecimentos válidos e pertinentes, e que a expressam de forma calma e não emotiva. Digamos que poderiam ser seleccionados também pela seu próprio estado em termos de saúde mental. Isto é muito importante.

Podem dizer-me que os comentadores que apresentam níveis elevados de ansiedade e uma postura emotiva, revelam uma motivação pessoal ou grupal, e têm uma agenda. Pode ser. Mas então porque têm os pobres mortais de os aturar?

Quanto a debates, esta quase ausência de respeito pelo adversário que se pode interromper sem qualquer cerimónia, tal como vemos acontecer na AR, é um péssimo exemplo de uma cultura pouco amiga da diversidade de opiniões que é a base da democracia.

 

Um dos paradoxos mais interessantes da cultura democrática, de uma democracia de qualidade, é que se tem de passar da discussão e do debate para a decisão e a acção. Este é o desafio. Ouvir as opiniões de todos os intervenientes e construir a partir daí convergências possíveis, compromissos possíveis. Estas convergências e compromissos garantem alguma consistência e estabilidade. Ora, consistência e estabilidade são condições essenciais para se trabalhar e criar, e são as bases de alguma sanidade mental também.

A nossa vida colectiva tem sido gerida da forma mais incerta possível, o que revela falta de sentido de responsabilidade. Leis são alteradas quando mudam os governos, trabalhos iniciados são interrompidos, a lógica alterada, as regras do jogo, os grandes propósitos, tudo muda como se nada estivesse a correr bem, e isto sem nada explicar, porque sim, agora é assim. Esta não é uma gestão responsável, só confunde, atrasa, retrai, afasta quem pode querer apostar no país. Mas tem sido essa a gestão política.

 

É por tudo isto que espero que os partidos que acreditam no país, nas pessoas concretas, no seu valor intrínseco, no seu direito de viver de forma digna, nas suas qualidades, nos seus recursos naturais e humanos, aprendam com estes solavancos e desafios, mudem a sua cultura de base, assumam a sua responsabilidade de gestão do colectivo.

É uma oportunidade, para eles e para todos nós, porque na ausência de poder legítimo embora imperfeito, surgirá um poder ilegítimo ainda que perfeito (para a lógica supra-nacional).

É também a oportunidade que lhes surgiu (talvez por acaso) de se redimir perante os cidadãos. Digo bem, redimir. O seu exemplo cívico tem deixado muito a desejar. Sabe-o quem ainda tem alguma consciência cívica.

Se encalharem agora por causa do tal corte exigido pelo FMI ou pela troika ou pelo BCE ou pela CE ou pelo próprio diabo (Gil Vicente diria melhor), isso será percebido como uma incapacidade de enfrentar os grandes desafios que nos esperam a nível de país entalado na Europa do euro. Não poderão merecer a confiança dos cidadãos, portanto. E ficamos realmente em maus lençóis. Porque haverá sempre um técnico, um tecnocrata, que dará conta do recado. Em nome da lógica financeira, a tal onde impera a maior insanidade mental.

 

 

 

publicado às 11:25

É que por enquanto este poder supra-nacional da CE, do BE e do FMI apoia-se na legitimidade financeira, no crédito financeiro e no suporte ao acesso aos mercados. Mas é por aí que se quer legitimar o poder total: político, fiscal, económico, o trabalho, a organização social, e sabe-se lá mais o quê.

 

Há qualquer coisa de muito perverso e deturpado que se está a desenhar actualmente na Europa e que se quer impor como inevitável aos cidadãos europeus. Esta chamada crise financeira caracteriza-se afinal por uma crise profunda de valores humanos, de consciência e de sentido de responsabilidade, perfeitamente visível nos discursos contraditórios das lideranças europeias e das organizações que supostamente deveriam ajudar países a recuperar mas que apenas destroem economias e democracias.

O federalismo que nos querem impor assemelha-se a uma réplica dos States na sua organização centralizada e dominada por um banco central.

Se olharmos com atenção para este visualizador sobre as desigualdades de rendimentos nos States, onde cabe ali o valor do trabalho? Não cabe. O trabalho é simplesmente desvalorizado e nem sequer considerado.

 

Já imaginaram o poder que isto envolveria sobre os estados membros? Quem está sob resgate da troika já sentiu esses dedos frios no pescoço: empresas a fechar, pessoas despejadas das suas casas, desemprego a disparar, jovens sem qualquer oportunidade de futuro, velhos sem perspectivas de manter as despesas com remédios, a classe média empurrada para a pobreza, a pobreza a generalizar-se.

 

Às vezes isto lembra-me War Inc. mas ainda não é esse caos de War Inc. que vemos a desenhar-se na Europa. É uma nova ordem que lembra Orwell na concentração do poder numa entidade inacessível mas que se simula próxima, na organização do poder em grandes potências-continentes, e nas principais características culturais: informação-propaganda, vigilância permanente, trabalho desvalorizado, tudo é produto de consumo. O caos de War Inc. ainda se pensa estar circunscrito a algumas partes do globo suficientemente distantes para não os incomodar: promovem-se os conflitos para adquirirem armamento e andarem entretetidos. Geralmente as interferências antecipam apropriação de recursos. Ou então circunscrito a determinadas camadas da população permeáveis ao consumo da informação de massas (propaganda) e ao entretenimento de massas (cultura do lixo).


Onde é que esta nova ordem=organização do poder encaixa neste séc. XXI da sociedade da informação?

Não encaixa enquanto houver a possibilidade de acesso à informação, à troca de ideias e à mobilização social.

Mas a informação que conta é vedada aos cidadãos. Os dados são-lhe apresentados num determinado contexto, com uma interpretação aceitável.

Assim, o que vemos actualmente acontecer é a divulgação ilegal de informação (!) através do acesso ilegal a serviços secretos e/ou da fuga de informação, ilegal portanto (!!) por funcionários desses serviços que a obtiveram ilegalmente (!!!). Seria preferível que a informação que diz respeito aos cidadãos, às suas vidas, à sua segurança, estivesse acessível pura e simplesmente.

O que é que esta informação obtida ilegalmente e divulgada ilegalmente revela? Simples cidadãos podem ser vigiados. Não lembra Orwell? 

O mais perverso é que dados de simples cidadãos também podem ser traficados e utilizados indevidamente por empresas que se movimentam numa cultura dominante em que tudo é um produto de consumo. E o mais perigoso é os seus dados poderem ser manipulados. Ninguém estaria em segurança em parte alguma.

Aqui no anexo 3 referi-me a este assunto de forma um pouco descontraída: quem não tem nada a esconder nada teria a temer. Mas não é bem assim. Aceitar como uma actividade normal e legítima, em nome da segurança por exemplo, a possibilidade de vigilância das mensagens electrónicas ou comunicações telefónicas, é dar a esses serviços um poder enorme, é praticamente pôr as nossas vidas nas mãos de organizações desconhecidas.

Isto, aliás, não é muito diferente da aceitação de um poder supra-nacional que se quer impor aos cidadãos, assim como de uma cultura dominante que não os considera nem respeita.

 

 

 

publicado às 14:37

Nos bastidores do teatro político

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.07.13

Está uma pessoa posta em sossego (distante de notícias televisivas e do acesso à internet) durante uma semana e quando volta ao mundo dominado pela cultura do circo e do lixo, o país está suspenso, os mercados estão nervosos, os políticos estão loucos, os comentadores estão atabalhoados.

Mas para quem anda aqui há uns tempos a observar a política nacional e a política europeia já nada a surpreende.

 

Caros Viajantes, estão todos a olhar para o palco e ninguém se lembra de olhar para os bastidores. É nos bastidores que se está a passar o teatro que conta!

A personagem principal não é Portas, é Gaspar. A segunda personagem que conta não é Portas, é Barroso. A terceira personagem que conta não é Portas, é Passos. Mas por artes mágicas da política nacional e internacional, Portas é o boneco na praça onde todos querem ir dar uma traulitada.

 

 

Vamos tentar ver este teatro na perspectiva do cidadão comum:

 

Então estes ministros foram passear a Alcobaça e beber uma ginginha e interromper um casamento, para dias depois o ministro das Finanças se demitir?

O ministro das Finanças decide demitir-se de repente porquê? Já cumpriu a sua missão?

Então o ministo das Finanças só agora é que se lembra que tem uma reputação a defender? E reputação perante quem? A Europa de Bruxelas acha-o o máximo. A Alemanha acha-o o máximo. Vai ser certamente catapultado para a estratosfera da finança, tal como Constâncio o foi depois de não ter visto nada nem supervisionado nada. Portanto, a sua reputação como argumento para evitar a tal reforma incómoda dos cortes de 4 mil e 700 milhões?? A sua reputação internacional, na troika, na finança, em Bruxelas, na Alemanha, está intacta e imaculada. OMO lava mais branco e tudo.

 

O cidadão comum que estiver atento também terá fixado o cinismo de Barroso quanto às expectativas do país relativamente às políticas de crescimento económico: Não se pode esperar de Bruxelas o que depende dos países membros... Pois, para que é que serve Bruxelas afinal?

E não é que os croatas aderiram a uma união europeia desequilibrada e adulterada?

 

 

A meu ver, isto que nos está a acontecer não é nada que não estivesse já a formar-se nos bastidores: foi entregue a Portas a responsabilidade do guião da reforma do Estado que, segundo o FMI, deveria conter cortes no valor de 4 mil e 700 milhões.  O ministro das Finanças sai de cena fresquinho que nem uma alface, depois de destruir a economia nacional sem a substituir por outra, agravar o desemprego, aumentar a emigração, limitar as perspectivas futuras dos jovens, matar a classe média e empobrecer o país. E em vez de se referir a esses danos na vida concreta dos cidadãos só se refere à sua reputação?

 

 

Portas é que se deixou entalar numa situação inaceitável:

 

1º - como foi possível ter aceitado ver-se privado da diplomacia europeia que foi entregue ao ministro das Finanças?

2º - assim como ter sido o nº 3 do governo?

3º - ter escolhido 2 ministros jovens e inexperientes pelo CDS?

4º - ter andado a viajar na diplomacia do mercado das exportações deixando o país entregue a uma equipa exterminadora?

5º - só se ter preocupado com as exportações desprezando o mercado interno?

 

A partir daqui, o que se poderia esperar? Sempre que o PSD esticasse demasiado a corda, o CDS viria à praça dizer que não deixaria?

 

 

Mas o que o cidadão comum parece ignorar é que isto está tudo ligado: Bruxelas, Alemanha, troika, mercados, ministro das Finanças. Barroso teve mais responsabilidade no que se está agora a passar do que se pensa. Sampaio. Constâncio. O anterior PM que também foi bom aluno de Bruxelas. Passos, outro bom aluno de Bruxelas, da Alemanha e da troika. O ministro das Finanças que saiu de cena.

 

Portas pouco tem a ver com isto mas vai ser apontado como o responsável. É sempre assim. O CDS que se quer manter no poder e ter um bom resultado nas Autárquicas vai ignorar o óbvio e insistir em ser a muleta de Passos. Até se transformar no bode expiatório do PSD.

 

Eleições já? Tudo aconselha a esperar até às eleições europeias. Estamos entalados na UE. É aí que tudo se vai jogar.

 

 

 

...

 

 

Anexo 1: A figura colectiva do bode expiatório está tão entranhada na cultura portuguesa que ainda funciona como escape para o poder. E os cidadãos ainda caem que nem patinhos nesse estratagema, é incrível. Durante uns tempos foi o ministro Relvas, logo que saiu voltaram a acertar no ministro das Finanças, mas agora que este saiu já estavam a apontar para Portas. E afinal, tudo para desviar as setinhas dos verdadeiros responsáveis: Barroso quando abandonou o país e Barroso enquanto Presidente da CE; Sampaio quando pregou uma partida a Santana e aos eleitores dessa maioria para catapultar o ex-PM e o PS; o ex-PM; o seu governo; quem promoveu o consumo e os cartões de crédito; quem facilitou a compra de casa; Constâncio que nada viu nem nada supervisionou e Constâncio promovido ao BCE; quem fugiu ao fisco; quem utiliza as off shores; quem pediu a troika; quem viu na austeridade uma oportunidade; o actual PM; o ministro das Finanças que saiu 2ª feira; ... E a lista pode ser completada pelos mais atentos dos Viajantes.

 

Anexo 2: O cidadão é sempre o último a saber e todos lhe ocultam a verdade. A comunicação social martela o que lhe dão. O governo agora até lhe oferece a informação mastigada em briefings em on e em off (!) agora interrompidos por motivos óbvios. Em todo o caso, posso desde já adiantar o que se prepara nesses briefings: o desemprego está a diminuir umas décimas... (!) estamos já na fase da recuperação económica... (!!) o pior já passou... (!!!) agora é só mais estes cortes e são mesmo os últimos antes de se baixarem os impostos... (!?) já estamos a ir aos mercados... (!?!)

 

Anexo 3: E não é que a CE também afivelou o espanto da espionagem americana? Não vêem os filmes do Matt Damon? Admitir sequer que nada sabiam é risível! E da forma como têm tratado os cidadãos europeus falar de transparência e de democracia mais risível ainda é! Na verdade, os únicos que não se incomodam com a invasão da sua privacidade é quem nada tem a esconder. Quem utiliza a internet já sabe que está sujeito a uma espreitadela. Foi por sentir essa ausência de privacidade e não controlar a replicação de mensagens, e/ou os contactos paralelos, que saí do Facebook pouco depois de ter entrado. Recentemente aderi ao Twitter que me dá uma sensação agradável de consciência abrangente, de sermos  uma partícula de um organismo vivo, a humanidade, e a sua tentativa diária de viver e deixar viver. Quanto aos e-mails, quem lá for ficará com informação sobre links úteis e conselhos práticos, nada que viole a confidencialidade de alguém. De resto, gosto do meu cantinho e sei que poucos são os Viajantes que aqui passam pois devem achar isto da observação e análise da política nacional e europeia uma verdadeira seca. (Quanto à escuta das chamadas telefónicas, isso já é mais problemático. É como espreitar por buracos de fechadura ou abrir correspondência alheia).

 

...

 

Anexo 4: Ontem ainda vi Ana Sá Lopes apontar os holofotes para a Europa e as exigências irreais da troika, referindo-se aos nossos parceiros europeus que mais parecem inimigos. Até hoje a maioria dos jornalistas tem revelado um conformismo mental relativamente à mensagem oficial: temos de honrar os nossos compromissos, a credibilidade depende da austeridade, os mercados não gostam de instabilidade, blá blá blá. É esta a versão oficial que nos tentam impor, mas já percebemos que esta austeridade desestruturou em vez de regenerar, dividiu em vez de unir, desanimou em vez de mobilizar. De tal modo é perversa que vemos o objectivo final, voltar aos mercados, cada vez mais longe. Há qualquer coisa de profundamente errado nisto tudo que está bem representado na atitude do PM e do ministro das Finanças. Porque a saída do ministro das Finanças não foi apresentada aos cidadãos nem explicada aos cidadãos nem preparada como uma remodelação mais profunda. É apenas um abandono antes do desastre. Aliás, Manuela Ferreira Leite teme o pior, como disse ontem no Política Mesmo da TVI24.

Estas duas mulheres fixaram a atenção no essencial: Ana Sá Lopes na Europa, no BCE, na troika, nos parceiros europeus, nos mercados, Manuela Ferreira Leite na saída do ministro das Finanças sem uma explicação ao país da verdadeira situação das finanças. Alertou ainda para os riscos dos tais cortes desmantelarem a administração pública que estrutura toda uma sociedade e o seu funcionamento.

Logo a seguir, a Constança Cunha e Sá que já não confia na possibilidade deste governo se manter, ainda ouviu 3 perspectivas diversas no programa Prova dos 9. Fixei-me no diálogo de Paulo Rangel com Fernando Rosas em que estavam a dizer a mesma coisa sem se aperceberem: a situação da Europa é preocupante para a democracia, qualquer coisa diferente está a emergir e ainda não se sabe como vai ficar. Ambos desejavam, penso eu, que o que surja de diferente seja mais representativo dos cidadãos, mas houve ali um momento zen em que não estavam a perceber essa coincidência.

 

Anexo 5: As eleições não adiantariam nada para já. Pelo que se tem visto das diferentes versões dos ministros das Finanças e de secretários de Estado de um e de outro governo, há explicações a dar por ambos os partidos, PS e PSD. Sem sabermos que terreno pisamos, em que situação estava o país e como chegámos até aqui, não sabemos em quem votar. Também o CDS tem de fazer um balanço da sua participação de 2 anos num governo em que absorveu a cultura de base: austeridade para pobres prosperidade para ricos. Digam o que disserem, a marca está lá e não pareceram muito incomodados por essa máxima não colar com a protecção do contribuinte, do reformado, da classe média.

 

 

 

 

 

publicado às 21:52


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